Gregório de Matos Guerra
Biografia e Contexto Histórico
Gregório de Matos Guerra foi o maior poeta do Barroco brasileiro e uma das mentes mais brilhantes e polêmicas do período colonial. Nascido em Salvador, Bahia, em uma família de senhores de engenho, mudou-se para Portugal onde se formou em Direito pela Universidade de Coimbra. Exerceu cargos de magistratura no reino, mas seu temperamento satírico e indisciplinado acabou por trazê-lo de volta à sua terra natal.
De volta à Bahia, deparou-se com uma sociedade colonial marcada por profundas desigualdades, corrupção do clero e da administração pública, e pelo declínio econômico. Recusando-se a submeter-se às convenções sociais e religiosas da época, Gregório passou a usar sua poesia como uma arma cortante, o que lhe rendeu o célebre apelido de "Boca do Inferno" e culminou em seu degredo para Angola.
A Versatilidade de Sua Obra
A produção poética de Gregório de Matos é fascinante justamente por sua multiplicidade. Ele transitava com maestria entre o sagrado e o profano, o sublime e o escatológico. Sua obra é didaticamente dividida em quatro vertentes principais: Lírica (amorosa e filosófica), Sacra (religiosa), Satírica e Erótica.
1. Poesia Lírica
Na vertente lírica, Gregório manifesta o dualismo típico do Barroco: a angústia diante da brevidade da vida e a fugacidade do tempo (tempus fugit), além do dualismo amoroso entre a carne e o espírito. A beleza feminina é celebrada, mas sempre acompanhada pela consciência de que o tempo tudo destrói.
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém se acaba o Sol, por que nascia? Se é tão formosa a Luz, por que não dura? Como a beleza assim se desfigura? Como o gosto da pena a se confia? Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza, Na formosura não se dê constância, E na alegria sinta-se a tristeza. Começa o mundo enfim pela ignorância, E a firmeza somente na inconstância.
2. Poesia Sacra
A poesia sacra ou religiosa reflete a profunda crise espiritual do homem seiscentista. O poeta ajoelha-se diante de Deus tomado pelo sentimento de culpa e pelo medo da condenação eterna. Utilizando uma forte argumentação lógica (característica do conceptismo), Gregório tenta convencer Deus a perdoá-lo, sob a premissa de que quanto maior for o pecado, maior será a glória do perdão divino.
Pecai, Senhor, mas não porque hei pecado, Da vossa alta clemência me despinto; Porque quanto mais tenho delinquido, Vos tenho a perdoar mais empenhado. Se basta a vos irar tanto pecado, A abrandar-vos amiúde um só gemido, Que a mesma culpa, que vos há ofendido, Vos tem para o perdão mais obrigado. Se uma ovelha perdida, e já recobrada Glória tal vos dá, como estatuís, Na vossa igreja ser festejada; Eis a ovelha perdida, recebei-a, E não queirais, pastor divino, nela Perder o vosso amor, que em mim nutris.
3. Poesia Satírica
Foi a poesia satírica que imortalizou seu apelido. Sem poupar ninguém, Gregório de Matos atacou governadores, juízes, falsos nobres, freiras e padres, traçando um retrato impiedoso, irônico e verborrágico da sociedade baiana da época. Sua crítica mordaz denunciava a inversão de valores morais e a ganância que assolavam a colônia.
Triste Bahia! oh quão dessemelhante Estás e estou do nosso antigo estado! Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado, Rica te vi eu já, tu a mi abundante. A ti trocou-te a máquina mercantil, Que em tua larga barra tem entrado, A mim foi-me trocando o meu pecado, Por modo bem terrível e sutil. Quem te viu e quem te vê, pasmo de ti, E quem me viu e quem me vê, de mim pasma, Ao ver-nos ambos dar tanta mudada. Foste a pátria ditosa e residida, Agora és o teatro da desgraça, Onde a miséria encena a sua farsa.
4. Poesia Erótica
Na vertente erótica e escatológica, Gregório liberta-se inteiramente do pudor clássico e das amarras clericais. Com um vocabulário cru, direto e muitas vezes repleto de termos de baixo calão, ele descreve o ato sexual, a anatomia humana e os desejos carnais sem metáforas idealizadoras. É uma poesia que choca pelo realismo e pela zombaria com que trata as convenções do amor cortês.
O Amor é um bicho que morde, É um despropósito tamanho, Que nasce de um olhar estranho, E se alimenta de discorde. Não há doutor que o reporte, Nem remédio que o abrande, Dá uma coceira tão grande, Que só se cura com a morte. É um desejo de juntar A carne com outra carne, Antes que o tempo desgarre O que a vida quer dar. Por isso, gozemos logo, Deste fogo que nos arde, Que quem deixa para tarde, Apaga em cinzas o fogo.