O Cortiço (adaptado para fins didáticos) | capítulo I

O Cortiço - Capítulo I (Integral)

O Cortiço

Aluísio Azevedo

💡 Dica de Leitura para o Vestibular: Atenção a este início! O Naturalismo foca na zoomorfização (homem agindo como animal por instinto) e no determinismo do meio social. Note como João Romão abre mão de qualquer dignidade humana pelo acúmulo de capital e como Bertoleza é explorada desde as primeiras linhas.
CAPÍTULO I

João Romão cresceu de ano para ano numa cobiça de louco. Fora caixeiro de taverna; ajuntara um pecúlio; comprara a taverna ao patrão, que se retirava para a terra; e, daí por diante, a sua vida fora um martírio de avareza, de privações, de labuta contínua, de manhã à noite, e de noite à manhã.

Morava na própria taverna, num cubículo escuro, por detrás do balcão; o seu vestuário reduzia-se a um calção de riscado e a uma camisa de chita, tudo muito velho e remendado; trazia os pés sempre descalços, metidos nuns tamancos de pau. Comia o que vendia e o que de pronto se azedava na loja: a carniça do balcão, o resto do feijão cozido do dia anterior, as pontas de pão que os fregueses deixavam. Não gastava um vintém em divertimentos; nunca fora ao teatro; nunca pagara um bico de gás; servia-se para a iluminação do negócio de uma candeia de folha de Flandres, alimentada com o azeite mais ordinário das pipas.

Aos domingos e dias de festa o seu trabalho era ainda mais duro que nos outros dias. Às quatro da manhã já ele estava de pé, lavando a calçada e espanando o balcão. Durante o dia a taverna não esvaziava um momento; era um entra-e-sai de gente que metia dó; e João Romão, ajudado por um caixeirinho galego, não dava conta do recado, servindo copos de parati, vendendo vinténs de fumo, trocando moedas, pesando pão e carne seca.

Capitalizava. Nem a febre amarela, que por duas vezes lhe bateu à porta, o fez afrouxar o passo. Diziam as más línguas que ele ajuntava dinheiro por meios ilícitos; que vendia por menos peso; que batizava o vinho e a cachaça; que recebia em penhor objetos roubados pelos negros da vizinhança. O certo é que a sua fortuna crescia a olhos vistos, e ele não mudava de vida, nem gastava um real mais do que o estritamente necessário para não morrer de fome.

Pela porta da taverna, que dava para um vasto terreno abandonado, começou ele a ver a possibilidade de um grande negócio. O terreno, que se estendia até aos fundos de uma chácara vizinha, pertencia a um fidalgo decadente, o Barão de Freixal, que vivia na miséria, sustentado por uma pensão do Estado e pelas migalhas que lhe davam os parentes ricos. João Romão propôs-lhe a compra de uma braça de terra para fazer uma casinha. O barão, que precisava de dinheiro para pagar as suas dívidas de jogo e manter as suas aparências na cidade, vendeu-lha por uma ninharia.

Aí ergueu ele a primeira casinha, uma fanga de terra cercada de tábuas, onde estabeleceu uma lavadeira, a Bertoleza, uma crioula robusta, trabalhadora, que vivia amancebada com um português, carroceiro de sua profissão, o qual a deixara para ir ao Sul. Bertoleza possuía também as suas economias, ganhas com o suor do seu rosto, lavando de dia e fazendo angu de noite na praça. João Romão, com a sua habilidade de caixeiro e a sua lábia de homem de negócio, conseguiu ganhar-lhe a confiança, tomou-lhe conta do dinheiro e, pouco a pouco, da própria pessoa. Tornaram-se amantes e sócios.

Bertoleza trabalhava que nem uma negra; de manhã à noite, ao pé da tina, lavando e passando a roupa de metade da vizinhança. Todo o dinheiro que ganhava ia direitinho para as mãos de João Romão, que o guardava num cofre de ferro, debaixo da cama. Ele, por sua vez, aumentava o negócio da taverna e estendia as suas garras sobre o terreno do barão. Comprou mais um pedaço de terra; fez mais duas casinhas; depois mais três, mais quatro. Valia-se também do material de construção que roubava à noite das obras vizinhas, carregando tijolos e telhas às costas, ajudado por Bertoleza, que não recuava diante de nenhum sacrifício para agradar ao seu homem.

Ao cabo de alguns anos, o terreno abandonado transformara-se numa imensa estalagem, uma colmeia humana, onde se acotovelavam dezenas de famílias de gente pobre, operários, lavadeiras, carpinteiros, cocheiros, toda uma população que vivia do trabalho diário e pesado. Era o cortiço. Uma aglomeração de casinhas de aluguel, alinhadas em filas paralelas, separadas por becos estreitos, mal iluminados e lamacentos, onde a vida fervilhava numa promiscuidade ruidosa, brutal e, no entanto, cheia de uma estranha e vigorosa alegria.

De manhã, antes do sol nascer, o cortiço começava a acordar. Era um rumor crescente de vozes, de portas que se abriam com rangidos secos, de panelas que batiam nas cozinhas improvisadas, de lavadeiras que cantavam modinhas tristes ao pé das tinas, enquanto a água corria nas bicas. O ar enchia-se de um cheiro forte e característico, uma mistura de refogado de cebola, sabão ordinário, fumo de rolo e o suor humano de corpos que mal tinham tempo de se lavar. Era o despertar daquela massa orgânica, que parecia ganhar vida própria à medida que o dia avançava.

João Romão olhava para aquilo tudo do alto do seu balcão com o orgulho de um criador que contempla a sua obra. Cada casinha daquelas rendia-lhe um aluguel seguro no fim do mês, cobrado sem falta e sem piedade; cada morador do cortiço era, por força das circunstâncias, um freguês obrigatório da sua taverna. Se precisavam de pão, de açúcar, de feijão ou de cachaça, era a ele que compravam, muitas vezes fiado, para pagar com juros de usura no dia do ordenado; se precisavam de dinheiro emprestado para uma urgência, era ao seu cofre que recorriam. O cortiço era uma máquina perfeita de fazer dinheiro, aspirando a energia daquela gente pobre e transformando-a em ouro líquido para o bolso de João Romão, que continuava a andar descalço, metido nos seus eternos tamancos de pau, vigiando tudo com os seus olhos de gavião.

Fim do Capítulo I • Conteúdo Integral para Fins Didáticos